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quarta-feira, 23 de maio de 2012

Palco, Gilberto Gil

Subo nesse palco, minha alma cheira a talco
Como bumbum de bebê, de bebê
Minha aura clara, só quem é clarividente pode ver
Pode ver
Trago a minha banda, só quem sabe onde é Luanda
Saberá lhe dar valor, dar valor
Vale quanto pesa prá quem preza o louco bumbum do tambor
Do tambor

Fogo eterno prá afugentar
O inferno prá outro lugar
Fogo eterno prá consumir
O inferno, fora daqui

Venho para a festa, sei que muitos têm na testa

O deus-sol como um sinal, um sinal
Eu como devoto trago um cesto de alegrias de quintal

De quintal

Há também um cântaro, quem manda é Deus a música

Pedindo prá deixar, prá deixar
Derramar o bálsamo, fazer o canto, cantar o cantar

Lá lá lá

 

Tem gente que parece que nasceu para escurecer o dia ou tornar a noite sombria. A criatura vive com a boca formando um bico. A musculatura da face é tensa e as sobrancelhas formam a letra “v” dando aquele ar ranzinza que assusta a qualquer um que tenha a desventura de se encontrar com ela.

Essa semana eu escolhi observar esses seres soturnos que andam por aí. Nos elevadores eles abaixam a cabeça e eu quase os ouço dizendo:  “Por que você entrou aqui? Bem que eu poderia estar sozinho ! Droga! E ainda me deseja um bom dia. Vou resmungar qualquer coisa para da próxima vez ela não se atrever a ficar ao meu lado!”

Nos supermercados presenciei cenas surrealistas! Cada membro da família “ranzinzis rabugentis” fica guardando lugar em uma fila. O primeiro que alcança o caixa faz um gesto nervoso para aquele que empurra outro carrinho bem cheio e lá sai ele em disparada. Claro que isso é o começo do barraco!

-    Que é que é isso? Você tem somente um carrinho! De onde saiu esse outro!?
-    Eu estava guardando lugar pra minha mulher!
-    Ah não! Aí são dois carrinhos! Pode ficar atrás de mim!
-    Bla bla bla bla bla bla...

E haja confusão e mais atraso na fila! E se tudo ficasse somente no bate-boca... Mas às vezes ocorrem trocas de dedos em riste na cara um do outro e até empurrões e tapas! Quanta falta de educação!

Concluí que essas pessoas mal-educadas invariavelmente são mal-humoradas. Quem não sorri afasta o outro e se torna ensimesmado e carrancudo. Só conversa consigo mesmo e só enxerga o lado ruim das coisas.

No trânsito, procuro me afastar delas. É fácil identificá-las: não se decidem por uma faixa, não dão passagem, trancam os demais motoristas, buzinam, colam o carro atrás do seu, falam palavrões, fazem gestos obscenos e por aí vai.

Experimente, por exemplo, trocar umas palavras com alguém que esteja aguardando para fazer exame de sangue. Se for da turma dos sem humor tenho certeza de que apertará o papel contendo a senha de chamada e, no máximo, balançará a cabeça para você como uma lagartixa ao sol. Os olhos ficarão arregalados, os batimentos cardíacos mais acelerados e a boca denunciará um aperto nos dentes.

Tente pedir uma informação na fila do cinema. O mesmo acontecerá. Sabe por quê? O “ranzinzis rabugentis” pensará que você está querendo passar a perna nele, ou melhor, passar na frente dele de algum modo.

Até pelo telefone é difícil se entender com o “ranzinzis”. A dicção é imperfeita e as falas monossilábicas; não há chance de você obter a simpatia dessa criatura. Ela, sem dúvida, parece não conhecer o amor e fará de tudo para dificultar sua vida.

Faço, então, um apelo: adote um “ranzinzis rabugentis”.  Insista em lhe oferecer seu melhor sorriso, seja sempre gentil com ele, ajude-o. Não perca sua paciência porque não vale a pena; você é quem corre o risco de ele tornar seu dia infeliz. Então, torne o dia dele melhor, mesmo que ele não entenda isso e ache que você é “mais um desses babacas-felizes-que-acham-que-a-vida-é-cor-de-rosa!”

E siga em frente feliz e sorridente porque essa é uma forma sábia de viver.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O que é, o que é? Gonzaguinha


Eu fico
Com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita...

Viver!
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz...

Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita...

E a vida!
E a vida o que é?
Diga lá, meu irmão
Ela é a batida
De um coração
Ela é uma doce ilusão
Hê! Hô!...

E a vida
Ela é maravilha
Ou é sofrimento?
Ela é alegria
Ou lamento?
O que é? O que é?
Meu irmão...

Há quem fale
Que a vida da gente
É um nada no mundo
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo...

Há quem fale
Que é um divino
Mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor...

Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é
E o verbo é sofrer...

Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser...

Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte...

E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita...


Ainda ontem  eu era uma menina serelepe brincando de roda no meio da rua. Pois é... a gente  podia transformar o meio da rua num meio de palco ou num playground porque havia poucos carros trafegando e, quando passavam, era bem devagar. Pedalava na bicicleta e colocava uma tampa de potinho de sorvete preso com um pegador de roupas nos aros da roda traseira pra fazer barulho. Lembro que, certo dia, o barulho cessou e eu resolvi olhar para trás e investigar o que havia acontecido. Não deu outra: subi com a bicicleta no primeiro tronco de árvore que apareceu na frente! Ô tombo! Mas não  aconteceu nada, exceto uns arranhões na perna. Segui em frente para a próxima aventura!

Com uns dez a onze anos, às brincadeiras de "Polícia e Ladrão"(adorava ser ladrão!) e de pular corda foi acrescentada "Salada de Frutas". Quem se lembra? A gente ficava vendado e alguém nos perguntava? Quer esse? Quer esse? "Esse" era um menino ou menina e, geralmente, a amiga que fazia a pergunta dava um beliscão no nosso braço - disfarçadamente, é claro! - indicando que era o momento de dizer "sim". Pera, uva, maçã ou salada mista? Cada fruta representava um cumprimento: beijo no rosto, abraço, aperto de mão e até beijo na boca. Se havia algum interesse maior em alguém, a resposta era rápida: uva! Ou seja, beijo na boca! Era um selinho rápido, movido a vergonha e excitação pela brincadeira feita muitas vezes escondida dos pais.

Minha adolescência não foi muito turbulenta. Gostava de estudar, de estar com minha turma e aos quinze anos, como escrevi no post "Flagra", descobri o amor. Hoje, mesmo  sendo uma senhora casada(kkkkk), com filhos e tal, confesso que nunca me esqueci do meu primeiro namorado. Não propriamente dele, mas da descoberta daquele sentimento novo e maravilhoso! Foi uma época mágica! Amava e era amada! Todo mundo sabe que amor adolescente é cheio de paixão, do tipo"nunca mais vou amar ninguém como eu amo você." É tempo de superlativos. E eu curti cada minutinho dessa fase...

Meu tempo de estudante parece que não acabou. Mantenho contato com meus colegas de escola graças ao facebook. Para nós, não existem senhores nem senhoras. Vemos uns nos outros as crianças do passado. Nos rostos não existem rugas nem cabelos brancos; permanecem o sorriso, a ingenuidade e a alegria.

Depois virei universitária, "Madame Sei de Tudo". Eu era dona do meu nariz, cheia de soluções para o mundo. Tirei carteira de motorista, me achava a própria! E vieram novos namorados nem tão importantes assim... Mas com o fim da faculdade e ainda sem emprego, vivendo com meus pais e sem dinheiro, a coisa foi ficando séria! De estágio em estágio, de atividades sem carteira assinada fui ficando cheia e resolvi que era hora de mudar. Ganhei alguns livros de um grande amigo que já foi para outra dimensão e comecei a estudar para o concurso do Banco do Brasil. Passei! E lá fui eu trabalhar em Amaraji, cidade da zona da mata pernambucana.

A partir daí descobri um  mundo diferente. A responsabilidade maior, dinheiro no bolso, novos amigos e uma carreira a seguir. Tudo ia se encaixando... Um dia casei, tive minha primeira filha e conheci o amor de mãe. Descasei, casei novamente, tive outra filha e vi que o amor pelas minhas duas meninas era do mesmo tamanho. Vivenciei aquela frase tão conhecida: "em coração de mãe sempre cabe mais um."

Esqueci de dizer que morei na Suiça e foi um experiência significativa. Trabalhei como femme de ménage (termo chique traduzido por faxineira) e ganhava lá mais do que ganhava aqui naquela época. Fazia limpeza três vezes por semana das 17h às 20h. Por meio desse novo ofício fiz amizade com pessoas de todo o mundo. Aprendi outra língua, conheci outros países, costumes diferentes e me tornei mais independente ainda.

No final do ano passado me livrei de um câncer e conheci o medo. Vi que a morte pode vir a qualquer hora e a gente nunca está pronto.  Mas recebi carinho e apoio dos amigos e da família e, como diz Mário Sérgio Cortella, reaprendi que "a vida é curta para ser pequena". Superei a doença com louvor e a ela, agradeço o amadurecimento acrescentado e uma nova forma de ver a vida.

E não é que hoje completo cinquenta anos? Gente, meio século de vida! Hoje é dia de agradecer a Deus, aos meus pais  e a maravilhosa família que tenho! Hoje é dia de agradecer a você que me lê porque tenho sua amizade.Que bom estar escrevendo estas linhas para comemorar !  Muito obrigada! É a vida, é bonita e é bonita...



quinta-feira, 19 de abril de 2012

Metade, Adriana Calcanhoto

Metade
 
Eu perco o chão, eu não acho as palavras

Eu ando tão triste, eu ando pela sala

Eu perco a hora, eu chego no fim

Eu deixo a porta aberta

Eu não moro mais em mim



Eu perco a chaves de casa

Eu perco o freio

Estou em milhares de cacos, eu estou ao meio



Onde será que você está agora?



Eu perco a chaves de casa

Eu perco o freio

Estou em milhares de cacos, eu estou ao meio



Onde será que você está agora?


 
Quero redigir algo, mas estou sem inspiração. Consequentemente, sem criatividade, sem ideias. Mas o bichinho das letras está cutucando meus pensamentos e meus dedos. Fico incomodada quando não coloco os pensamentos para fora. Alguém sugeriu que eu escrevesse sobre os mistérios da vida. Haja mistérios! Seria a falta de inspiração um deles?


Adoro escrever, mas geralmente o texto parece estar pronto na minha cabeça e escrevo impetuosamente, com paixão. As frases saem como se estivessem enfileiradas à espera de  alguém para chamá-las. Vez por outra há problemas: uma palavra na fila errada, outra mal posicionada, e até as que fogem e é preciso parar uns instantes para agarrar a fugitiva. Dificuldades são comuns e me valho de dicionários, gramáticas, google e uma troca de conhecimentos com alguém que, porventura, esteja ao lado dessa medíocre amante das letras e metida a escritora. 


Mas ficar sem inspiração é cruel! Nesse caso, tenho a impressão de que as frases estão em greve na minha mente. Fuço aqui, leio acolá, procuro por elas e não consigo encontrar uma mísera oração. Já ouvi várias vezes que "escrever é 90% transpiração e 10% inspiração", e concordo, mas que é difícil escrever sem essa segunda companheira, é!


À noite, quando me deito e fecho os olhos, deixo minha mente vagar  na esperança de, ao adormecer,  reencontrar minha inspiração perdida num beco qualquer dos meus sonhos; mas eis que abro os olhos e já é hora de levantar e cuidar dos meus afazeres. Recapitulo os sonhos e, absolutamente, nenhum texto brotou.


Mais um dia de impaciência a me atormentar. Estou há três semanas  longe do blog. Percebo, também, que nenhuma música se insinuou para mim e, caso tenha se insinuado, não me conquistou. É chegado o momento de agir! 


Por isso, resolvi passar por aqui e me desculpar com você que me segue, que me lê e me apoia nessa jornada em busca do talento para as letras. Vou transpirar e, quem sabe, aceitar a sugestão  e destrinchar os mistérios da vida? 

segunda-feira, 26 de março de 2012

Tempo, Tempo, Tempo, Tempo - Caetano Veloso


És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Entro num acordo contigo
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
És um dos deuses mais lindos
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Ouve bem o que eu te digo
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Quando o tempo for propício
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definitivo
E eu espalhe benefícios
O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Apenas contigo e comigo
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Não serei nem terás sido
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Num outro nível de vínculo
Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo 



Cheguei à conclusão de que vendemos nosso tempo muito barato. Uma pessoa precisa trabalhar para usufruir de condições para cuidar de si, dos outros e até do planeta. Mas habitualmente, dedica mais tempo ao trabalho do que a outras atividades que gosta ou precisa fazer.

Do filme:Morangos Silvestres
Precisamos  e gostamos de ir ao dentista, ir ao médico, acompanhar os filhos, estar com os amigos, estudar, se deslocar,  cuidar do corpo, ir ao cinema, ler, cozinhar, se alimentar,  fazer compras, dormir, pensar e a lista segue infindável ... Mas dedicamos muito mais tempo ao trabalho. A maioria de nós precisa de autorização de um superior para ir ao médico. Na volta, deve apresentar atestado de comparecimento e, muitas vezes, compensar essas horas. Se para ir ao médico é um transtorno, o que pensar se formos ao salão de beleza? 

Como  realizar um bom trabalho voluntário se ele também exige responsabilidade, assiduidade e todas os demais "ade" do nosso trabalho? Quem não gostaria de acompanhar melhor a vida escolar dos filhos ou estar mais com o companheiro? E cuidar da alimentação da família e da arrumação da casa? E fazer uma atividade física com regularidade? Ou meditar? Ou não fazer nada? Quando conseguimos é quase sempre às custas de algo ou alguém. As mulheres, por exemplo, ainda pagam um preço muito alto por estar no mercado de trabalho, mesmo com ajuda do companheiro ou de outra pessoa.

Muitas famílias são "governadas" pela presença de outras mulheres e homens que deixam seus lares para cuidar de outros. São as babás, empregadas domésticas, diaristas, jardineiros, caseiros e demais profissionais dessa área que, segundo pesquisas recentes divulgadas na Revista Época  vem diminuindo gradativamente. Será que a mulher vai retornar sua vida ao lar? Será que vai diminuir a quantidade de filhos? Ou será que vai diminuir a quantidade de horas trabalhadas e, naturalmente, se conformar com rendimentos mais baixos ainda do que os que recebe atualmente?
Estou citando as mulheres porque sou mulher, mas as pessoas vendem seu tempo por um preço muito baixo. Considerações a parte sobre uma minoria que exerce cargos mais altos penso aqui naqueles e naquelas que saem todos os dias de casa deixando para trás filhos, atividades e até sonhos, mesmo! Acho que se essas pessoas não querem e não podem sair do mercado de trabalho, precisam exigir rendimentos mais robustos, que a façam abrir mão de tudo o que citei por um valor justo. Mas o que é um valor justo? Será que existe? Até mesmo para essa minoria que citei?

A dupla jornada de trabalho feminina ainda é fato, mesmo que muitos homens já participem da vida doméstica. Mas levará tempo até que a divisão de tarefas se torne igual.Porque não se trata somente de divisão de trabalho, mas sim, de felicidade. Quando uma mulher sai para trabalhar, ela troca muitas vezes,  felicidade por pouco dinheiro. Mesmo sendo feliz com o seu trabalho, ela faz malabarismos para administrar o tempo.

Será que devemos promover um movimento em prol de salários mais dignos da perda de felicidade que juntamos ao longo da vida? Esse fenômeno da inserção da mulher no mercado de trabalho é complexo porque a ela ainda é cobrado papéis considerados estritamente femininos como exercer a maternidade, administrar o lar e ainda mirar-se no exemplo das Mulheres de Atenas: "... quando amadas se perfumam, se banham com leite, se arrumam Suas melenas..."

Para que trabalhemos o suficiente e desfrutemos do ócio não devemos apenas fazer aquelas  mudanças sugeridas em seminários, revistas e livros:  ter mais flexibilidade nos horários pessoais, reorganizar o horário, investir na qualidade do tempo dedicado à família, etc. Acho que é a sociedade quem precisa de uma reorganização do tempo de trabalho. As empresas devem oferecer condições para as pessoas trabalharem à distância;  os horários de trabalho também poderiam ser melhor distribuídos, quando isso fosse possível. Por que a maioria trabalha das 9h às 18h? O trânsito fica caótico com tantos veículos circulando! Por que precisamos trabalhar todos os dias nos mesmos horários? Não seria interessante termos horários variados ao longo da semana? 

Defendo que o valor do horário de trabalho seja rediscutido em outros termos que não somente o financeiro. Então, quem tiver a oportunidade de negociá-lo, que o faça bem feito. 

A reflexão fica. Que as pessoas mudem o que for possível, que discordem, que concordem, mas não sejam apáticas. Insisto: nosso tempo é precioso!





sexta-feira, 9 de março de 2012

Malandragem, Cássia Eller


Quem sabe eu ainda
Sou uma garotinha
Esperando o ônibus
Da escola, sozinha...

Cansada com minhas
Meias três quartos
Rezando baixo
Pelos cantos
Por ser uma menina má...

Quem sabe o príncipe
Virou um chato
Que vive dando
No meu saco
Quem sabe a vida
É não sonhar...

Eu só peço a Deus
Um pouco de malandragem
Pois sou criança
E não conheço a verdade
Eu sou poeta
E não aprendi a amar
Eu sou poeta
E não aprendi a amar...

Bobeira
É não viver a realidade
E eu ainda tenho
Uma tarde inteira
Eu ando nas ruas
Eu troco um cheque
Mudo uma planta de lugar
Dirijo meu carro
Tomo o meu pileque
E ainda tenho tempo
                                                        Pra cantar...

                                          ...Quem sabe eu ainda
Sou uma garotinha...



Quando anunciei que tinha câncer de tireoide e faria iodoterapia, minha prima Fabiana pediu: "escreve no blog, conta pra gente como é..."

Fabiana, acredite, não é fácil. Não pretendo falar sobre a doença em si porque ela existe de diversas formas e é única para cada um que a sofreu ou ainda a sofre. Ela modifica as pessoas e permite um aprendizado. Ainda não estou pronta para falar sobre isso. Fica para outro momento. Vou falar sobre a iodoterapia e os sentimentos que ela desperta.  


A preparação exige alguns exames e a suspensão do iodo durante um mês antes, aliados à uma dieta pobre em iodo. Isso altera nosso metabolismo causando desconforto emocional e fisiológico. Passei com louvor nessa etapa, embora na última semana apresentasse uma irritação profunda e impaciência além do normal.

Na maioria das vezes é necessário ficar dois dias internada. Não foi meu caso, graças a Deus! Fiquei somente 1 dia porque a dose foi menor do que a usual. 

Não posso me queixar do apartamento do hospital: era limpo, tinha TV a cabo, decoração mais humanizada do que a dos quartos hospitalares, vista definida(pode-se dizer assim???)mas tudo era recoberto de plástico e tudo me lembrava que eu estava sob condições adversas.

Tomei café da manhã às 7 horas porque estava previsto que tomaria o iodo às 9 horas. Não foi assim. Houve atraso na internação e tomei a dose às 11. A médica me deu um remédio para prevenir enjoos e o "veneno da salvação" estava em um recipiente de chumbo (acho) bem compacto; inseriu um canudo ali e eu ingeri o líquido inodoro, incolor e insípido. Parece água, mas a gente sabe que não é. Ainda ficaria em jejum por duas horas mais ou menos. Às 14 horas me trouxeram um lanche. O setor de nutrição não havia sido informado da minha chegada e assim não tive almoço. Com sono, trancada e ainda por cima sem um almoço decente. Tudo bem.

Solicitei água porque a médica recomendou que bebesse muito líquido para eliminar o iodo o mais rapidamente possível,  e eis que finalmente minhas preces foram ouvidas e a recebi às 15 horas! Foi uma sensação boa beber água passadas 8 horas do café da manhã. Então começou a maratona: beber água, fazer xixi, beber água, fazer xixi... Eu só conseguia pensar nisso, queria me livrar do iodo. 

Resolvi palavras cruzadas, li revistas, assisti a filmes, mas minha mente não estava ali. Pior, meu coração não estava ali. Só pensava na família, no trabalho, no meu lar. Que falta senti! No momento em que mais precisava do apoio deles, eles estavam impossibilitados de fazer qualquer coisa.

Passei a noite entre acordada, cochilando e fazendo xixi mas pude sair ontem(Dia Internacional da Mulher) às 12 horas. Agora estou em um hotel porque os médicos concluíram que seria difícil a minha filha mais nova ficar afastada de mim, se voltasse para casa. E então tenho novas orientações de como não prejudicar as pessoas que aqui estão. Nossa, como é complicado! Preciso ficar à distância de, pelo menos,  1 metro de qualquer ser humano, mas mesmo assim, não confio. Ajo como se tivesse transtorno de conduta, evitando me aproximar das pessoas. Faço algumas refeições no quarto, caminho solitária e adequei minhas atividades para serem realizadas aqui dentro. Tive permissão para ir à piscina e fui, mas não me senti à vontade. Sinto-me contaminada, inadequada para seres humanos. Quando vejo uma criança, saio logo. Ainda bem que aqui vi poucas. Mulheres, afastai-vos de mim!  E se estiverem grávidas? Socorro! Não posso fazer mal a ninguém!

Problemas práticos mais ou menos resolvidos, vem a pergunta: e meu lado emocional? Gente, estou fragilizada. Depois de inúmeros exames, ainda resta um último para enfim, eu voltar a minha vida normal. E a saudade da família?Estou sofrendo demais a ausência dela. Como gostaria de estar cercada pelas minhas filhas e meu marido... E a falta dos amigos? Disso tudo é a única coisa importante! Minha querida mãe está para chegar e não vejo a hora de me abraçar com ela e pedir colo. Fui guerreira, sim. Estou sendo guerreira, mas a hora de depositar as armas às margens do caminho está chegando... Confesso que estou cansada. Os médicos dizem que lutei bravamente, mas estou cansada, estou cansada, estou cansada. Sim, há casos bem piores, com certeza! Mas uma das médicas me disse: "Não importa. É carcinoma." Eu acrescento: há pessoas mais fortes e há pessoas mais fracas. E não sei em qual categoria me enquadro, mas isso não é importante. Quem sabe eu ainda sou uma garotinha... 




quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Stayin' Alive - Bee Gees


Well, you can tell by the way I use my walk
I'm a woman's man, no time to talk
Music loud and women warm,
I've been kicked around since I was born
And now it's all right, it's okay
you may look the other way
We can try to understand
The New York Times' effect on man

Whether you're a brother or whether you're a mother
You're stayin' alive, stayin' alive
Feel the city breakin' and everybody shakin'
And you're stayin' alive, stayin' alive
Ah, ah, ah, ah, stayin' alive, stayin' alive
Ah, ah, ah, ah, stayin' alive

Oh, when you walk

Well, now I get low and I get high
And when I can't get either, I really try
Got the wings of heaven on my shoes
I'm a dancin' man and I just can't lose
You know, it's all right, it's okay
I'll live to see another day
We can try to understand
The New York Times' effect on man

Life goin' nowhere, somebody help me
Somebody help me yeah
Life goin' nowhere, somebody help me yeah
I'm stayin' alive

Saudade. Esse sentimento tem me acompanhado há algum tempo. Visito o facebook e procuro amigos de ”aborrecência”, companheiros de profissão, gente querida cujo contato perdi em algum "Triângulo das Bermudas ”... Localizei vários e hoje, por exemplo, estou exultante porque consegui o número de telefone de uma amiga queridíssima. Ela não participa das redes, mas por meio da sua irmã, consegui algo mais precioso: vou ouvi-la!

Ontem, como era muito tarde, não telefonei, mas a nostalgia me fez ouvir velhos sucessos que dançávamos e cantávamos juntas nos tempos dos “"Embalos de Sábado à Noite". Lembro-me bem de que frequentávamos a matinê de uma discoteca perto de casa, a “Number One”. Tínhamos hora para voltar, mas éramos privilegiadas porque morávamos bem perto dessa discoteca que funcionava em um hotel da cidade, na via costeira.

Também íamos à praia nos fins de semana, além de à noite obtermos permissão dos nossos pais para ficarmos sentadas nos bancos do jardim do prédio “até as luzes se apagarem”, isto queria dizer, até as 22 horas. Nossa turma era bacana(em gíria da época) e quase todos que participavam dela são pais e mães hoje, profissionais bem sucedidos e, mais importante, continuam gente boa!

Ainda não sei se essa amiga que reencontrei tem filhos, se é feliz, se está bem, o que está fazendo da vida, mas sei que sinto saudades dela. E espero que ela esteja alegre e engraçada como era. Quando me lembro da gargalhada dela, fico absolutamente feliz!

Ela era a única negra entre nós e, com ela, aprendi muito cedo a dor do preconceito; e tinha raiva e chorava quando ela sofria discriminação. Alguns seres humanos conseguem ser desprezíveis e parecem sentir prazer em ferir.  Mas eu protegia minha amiga! A mãe dela trabalhava no apartamento de uma família residente no prédio e ela era menos favorecida socialmente, mas nunca menos amada.

Era linda, parecia uma modelo! Tinha tudo para entrar no mundo fashion das beldades, mas penso que não foi esse o caminho que ela escolheu. Ensaiávamos Stayin' Alive em busca do passo de dança mais perfeito que o da estrela do filme, a Karen Lynn Gorney. A flexibilidade dela era de dar inveja! Eu conseguia me mexer, mas ela sabia dançar!

Estou ansiosa para ouvir novamente a voz da minha amiga e relembrar nossas aventuras nos anos 70. E, principalmente, espero que ela tenha conseguido fazer da vida a dança mais perfeita; porque o passo mais firme ela sempre mostrou.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Acho que tô esquecendo alguma coisa ...


Meu marido atravessou a rua, abriu o carro e guardou as compras que havia feito. Ia dar a partida quando observou que uma mulher, num carro estacionado próximo ao dele, mexia nervosamente a bolsa e olhava para o interior do carro dela. Depois, abriu o porta-malas e parecia falar sozinha. Ele dirigiu-se a ela e perguntou se estava com algum problema, se poderia ajudar.
- Perdi as chaves do carro – disse ela.
Ele foi ajudá-la e, pelo menos, sabiam que a chave só poderia estar por ali porque a porta do carro havia sido aberta. Mas afinal, a chave tinha caído? Não, ela deixara a chave em um lugar seguro para não esquecê-la e poder arrumar as compras. E por que não tinha inserido a chave na ignição? Ah, vai que aparece um assaltante...
Procura vai, procura vem, a chave foi encontrada. A mulher agradeceu e meu marido voltou ao carro dele. Sentou-se ao volante e quando foi dar a partida percebeu: onde está a chave do carro? Saiu rapidamente e fez sinal para a mulher.
- Por favor, pare o carro!
- O que aconteceu?
- Perdi as chaves do meu carro.
Novas buscas, chave localizada e problema resolvido.
Quando ele me contou essa história é claro que ri um bocado! E pensei em mim mesma que perco os óculos quando eles estão na cabeça; compro pão e saio sem pagar; já cheguei ao cúmulo de provar roupas em uma loja e quase sair com um vestido pendurado no braço. Quase... não fosse a interferência gentil e desconfiada da vendedora. Nem perdi tempo dando explicações: ela tinha uns vinte e poucos anos. Ainda não sabia o que era isso.
Depois dos quarenta percebi uma degenerescência gradual da minha memória. Usei essa palavra grandalhona aí por vaidade mesmo, pelo prazer de tê-la agarrado antes que entrasse no sumidouro das palavras perdidas. Sabe como é isso? Estou conversando ou escrevendo e eis que engasgo, fico muda e a palavra seguinte não sai. Faço uma varredura mental, palavras começando com a letra b, c, g; não, acho que começa com a letra s, sa, se, si ,so... Soluço! Ai que alívio!
Para a escrita é menos pior. Afinal, na era do Google, basta fazer uma pausa e sair em busca do esquecido. Pesquisando com calma, o assunto é liquidado; isto é, se a gente tiver uma dica porque agora mesmo estou tentando me lembrar o nome de um filme em que a atriz principal descobre que tem o “Mal de Alzheimer” e não estou conseguindo. Espera um pouquinho que vou ao Google. Sei que é um filme coreano e ganhou um prêmio no Festival De Cannes. Achei! Poesia (Shi, 2010), do diretor Lee Chang-dong. A atriz, Yoon Jeong-hee, tem uma atuação valiosa e... Bem, meu assunto é outro, mas viram como o Google é fenomenal?
Mas a tal da falta de memória atrapalha demais! Quantas vezes encontro alguém que me cumprimenta efusivamente e eu acompanho com atenção todas as falas desse meu interlocutor ainda desconhecido pra mim, olho atentamente para o rosto da criatura e nada! Branco total! Ainda mais embaraçoso é se estou com alguém da minha família e quero fazer as apresentações. Sei que conheço você, sei que trabalha em tal lugar. Mas qual é o seu nome, seu nome? A pessoa vai embora e eu me sinto frustrada. Pode ser, pode ser, daí a alguns dias, se eu me esforçar muito, que  o nome dela surja na minha mente. Será tarde e Inês morta!
Já aceitei pedidos de amizade pelo Facebook em que não fazia a mínima ideia de quem era o dito cujo. Depois, fuçando as informações e fotografias (ainda bem) me lembrava do “novo” amigo. Claro, nunca novo, na maior parte das vezes!  As imagens enfeitadas pelos textos nas redes sociais são uma apoteose para mim!
Acredita que eu já saí para ir à igreja e tomei o caminho do meu local de trabalho? E ainda precisei relembrar, com calma, para onde ia realmente? Marquei horário com o dentista e fui ao oculista? Forneci o número do celular da minha filha em um consultório médico, em vez do meu? E somente descobri o engano quando a secretária ligou para minha filha para confirmar minha consulta. E minha filha (menina esperta!) confirmou porque logo percebeu que eu havia cometido mais um deslize por culpa da minha memória, ou melhor, da minha falta de memória.
Preocupada, até fui a um neurologista. Ele realizou vários testes comigo e disse que eu estou bem. “Precisamos esquecer para lembrar”, foram essas as palavras dele.  Pelo sim, pelo não, iniciei uma batalha para manter meu cérebro vivo. Faço sudoku, palavras cruzadas, jogo da memória, exercícios de lógica, medito, pratico ioga e leio, leio muito! Leio com atenção!
Mas enfim, naquele mesmo dia em que meu marido me contou suas aventuras com as chaves dos carros, fomos ao shopping. Depois de estacionar, ele me pediu para gravar o local onde estávamos deixando o carro. Olhei bem e registrei: Setor F6, F de Fátima. Saí caminhando, mas resolvi voltar alguns passos; abri a bolsa e bati uma foto do local. Prevenido, morreu de velho!




P.S.: sabia que estava esquecendo alguma coisa: a música! Não me lembro mais qual é...